|
Pogoria
|
|
|
Quinta-feira, dia 30 de Julho de 1998, estiveram em visita ao Instituto Piaget capitães e professores de dois veleiros-escola que estavam de passagem por Lisboa durante a regata 'Cutty Sark Tall Ship Race', organizada pela ISTA - The International Sail Training Association.
Esta regata é já há alguns anos promovida pelo uísque do mesmo nome e é realizada todos os anos e percorre uma pequena parte do mundo. Este ano, saiu de Plymouth na Inglaterra, passou por Lisboa, por Vigo na Espanha e terminará em Dublin na Irlanda. Já há uns vinte anos que não passava por Lisboa e foi, portanto, uma festa. Participaram 87 veleiros de todos os tamanhos, os quais estiveram ancorados em Lisboa para visitação pública. Uma característica interessante é que um veleiro para participar tem que ter pelo menos 50% da tripulação com idades entre 15 e 25 anos. Daí que grande parte dos veleiros participantes são navios-escola. Eu não sabia que havia navios-escola civis. Os há e muitos. Boa parte dos grandes veleiros participantes pertence a Universidades, colégios, associações ou mesmo municípios de todo o mundo. Portugal, infelizmente, não tem nenhum civil e participou apenas com a Sagres, da marinha, e com a Boa Esperança, réplica de uma caravela. O Brasil também não participou com o Almirante Barroso, único navio-escola brasileiro. Muitos desses navios escolas são utilizados levando alunos de escolas regulares a um período de três meses no mar, onde, para além de aulas normais, as mesmas que teria na escola em terra, aprender noções de marinhagem. De facto, são esses alunos que fazem todos os trabalhos de navegação, sob a supervisão dos oficiais, muitos dos quais são professores (de História, Geografia, Matemática, etc.) nessas escolas e interessam-se também pela navegação. Daí que surgiu o convite para visitar dois deles: o Pogoria, polonês, e o Concórdia, canadense. Fomos apenas eu e uma colega minha e até jantámos a bordo, na mesa do capitão do Pogoria. Daí, conversa vai, conversa vem, surgiu o convite para participarmos na segunda-feira dia 3 no trecho Lisboa-Vigo. Entusiasmámo-nos, claro. E fomos. Afinal, na segunda-feira, os planos haviam mudado: como a tripulação havia mudado naquele fim-de-semana e os ventos estavam fortes, o capitão resolveu participar apenas da parada no Tejo até a Torre de Belém em tributo ao Vasco da Gama, retornar ao cais e partir apenas na quarta-feira. Ficou, então, de novo, o convite para participar no trecho Lisboa-Vigo. Afinal tinha havido uma grande confusão, não havia convite nenhum. Mas eu como não sabia, fui ter com o capitão do Pogoria na terça-feira para confirmar o convite e, já agora, para ver se a Iza não podia ir também, já que minha colega já não iria. Resumindo a história, poderíamos ir se pagássemos a 'diária', de menos de US$30,00, o que é bem menos que a diária de um hotel, e se estivéssemos dispostos a trabalhar como os outros tripulantes, já que o navio não leva passageiros. Não poderia ser melhor! A Iza já tinha ficado de sobreaviso, liguei para ela lá do cais mesmo, confirmámos e ela teve apenas algumas horas para arrumar a mala, porque a minha estava pronta desde segunda-feira.
Depois vim a aprender que o Pogoria já se chamou Kaliakra e foi construído em 1980 pelos estaleiros de Gdansk e hoje pertence a clube naval polonês, em Varsóvia. É um barquetim (barquetine), ou lugre patacho, como se chama cá em Portugal, porque tem três mastros, sendo o de proa com pano (velas) chamado 'redondo' porque, como são perpendiculares ao barco, 'enchem-se' com o vento e arredondam-se, e os restantes mastros com velas 'latinas', isto é, paralelas ao comprimento do barco. Tem 47 m de comprimento e 30 m altura de mastros e uma área de 1000m2, onde se acomodam 60 pessoas. Para além das velas, tem ainda um motor diesel de 310 cavalos. Há basicamente três tipos de tarefas: manutenção do convés superior, manutenção do convés inferior, incluindo serviço de cozinha, e vigia de navegação. Como há umas dez pessoas por turma, nem todos trabalham em cada turno. Mais tarde, o capitão nos deu algumas explicações básicas sobre a rotina do navio. O trabalho a bordo é dividido em rodízio pelas várias turmas, em blocos de 4h. Há períodos de trabalho e de folga. Nas horas de folga, podes fazer o que quiser: dormir, ler, tomar sol, sair do barco se estiver atracado. Nas horas de turno, tens que estar a bordo, mesmo que não lhe seja atribuído trabalho pelo líder de turma. Estivemos ainda um pouco a conversar, em inglês ou alemão, com colegas de turma no convés e fomos dormir. Nossa turma estava escalada para vigia de navegação das 4 às 8h mas nem eu nem a Iza chegámos a ser chamados.
Às 10:30h atribuíram-nos as primeiras tarefas: limpar a borda do convés e os deques com panos húmidos. Como era o primeiro dia, começaram alguns a marear. Eu fiquei bem, mas a Iza e vários outros tiveram que ir para a cama. A Iza e a maioria dos outros ficaram bons no dia seguinte mas alguns levaram mais dias. Às 13:30, tocou o sinal de almoço: uma saborosa sopa e um prato consistindo em puré de batatas, repolho com molho ácido (parecido com aquele que servem no Chicken-in) e um bolo de carne recheado com ovos cozidos. Como não foram atribuídas mais tarefas, fui dormir para assentar o almoço.
Quinta-feira dia 6, no nosso turno de vigia de navegação das 0 às 4h, passámos um grande susto: um cargueiro veio se aproximando, a ignorar todos os sinais de rádio e de luzes, sem se desviar um milímetro, e passou a cerca de 50 m à nossa frente! O seu piloto devia estar a dormir! Uma quase colisão, evitada pela perícia do nosso capitão. Ainda nesse turno, às 3h, toca o sinal de manobrar velas e sobe toda a gente para o convés, com equipamento de segurança, para recolher as velas. Assim que se acendem as luzes dos mastros para iluminação, aparecem montes de golfinhos. Na sexta-feira às 12h fizemos a entrada no porto de Vigo. Todos uniformizados com a t-shirt do Pogoria em formação no convés, acompanhados por pequenas embarcações e sob os aplausos do público que nos esperava no cais. Manobras de atracação e pronto. Ficámos ainda o sábado, domingo e até a noite
de segunda em Vigo, quando chegou a nova tripulação para levá-lo até
Dublin.
Segunda-feira dia 10 à noite tomámos um comboio para Lisboa e chegámos às 6h da manhã, a tempo de um banho e pequeno almoço antes do trabalho. Engraçado é que na quarta dia 12 entrei em férias. Claro que terça e quarta foi para readaptar à terra firme e recuperar o sono da viagem de trem. Mas já estamos operacionais de novo. E assim foi uma das nossas maiores aventuras até hoje.
|
|
Esta página foi actualizada terça-feira, 15 de abril de 2003 |