O próximo ano de 2004 será bissexto.
Em nosso calendário, chamado Gregoriano, os anos comuns têm 365 dias e
os anos bissextos têm um dia a mais, totalizando 366 dias. Esta
informação praticamente todo mundo sabe, mas o entendimento sobre o
funcionamento dos anos bissextos ainda é recheado de dúvidas na
cabeça de muita gente.
Muitas “regras populares” foram
criadas para calcular anos bissextos, do tipo:
“Todos os anos que sejam
múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100 (terminem em 00)
são bissextos”.
Mas será que isto está correto? E o
ano 2000, que foi bissexto e contrariou a regra acima?
Bom, neste caso é necessário
adicionar um “detalhe” à regra, que ficaria assim:
“Todos os anos
que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100, com
exceção daqueles que são múltiplos de 400, são bissextos”.
Ah, agora sim! Mas por quê? Quem
inventou esta regra? Por qual motivo? Com base em quê foi criada?
A origem do ano bissexto
Em 238 a.C., em Alexandria no Egito,
durante a monarquia helenística de Ptolomeu III (246-222 a.C.), foi
decretada a adição de 1 dia a cada 4 anos para compensar a diferença
que existia entre o ano do calendário, com duração de 365 dias e o
ano solar (em astronomia chamado de ano astronômico sazonal) com
duração aproximada de 365,25 dias, ou seja, de 365 dias + 6 horas.
Com este excesso anual de 6 horas, que
após 4 anos completa 24 horas, 1 dia extra deveria ser acrescentado ao
calendário oficial, a cada 4 anos, para evitar os deslocamentos das
datas que marcavam o início das estações. A programação das épocas
de semeaduras e colheitas eram baseadas no calendário das estações.
Qualquer discrepância neste calendário afetava a agricultura, que era
base da economia dos povos antigos. Lamentavelmente, esta tentativa de
reformulação do calendário não teve a aceitação necessária e as
discrepâncias permaneceram na contagem dos dias.
Quase 200 anos depois, em 46 a.C. (que
naquela época era chamado ano 708 da fundação de Roma), o imperador
romano Júlio César (102-44 a.C.), retomando as idéias helenísticas,
resolveu intervir no sistema de contagem do calendário, para corrigir
mais de 3 meses de desvios acumulados até então e criou o “Calendário
Juliano” que evitaria novos erros. Para elaborar esta tarefa, trouxe
de Alexandria o astrônomo grego Sosígenes (90-?? a.C.) para
auxiliá-lo e, entre outras modificações, decretou que:
- O ano de 46 a.C teria 445 dias de
duração, para corrigir os desvios acumulados até então.
- Os anos teriam 365 dias e haveria 1
ano bissexto a cada 4 anos a partir de 45 a.C (que também seria
bissexto)
- Seria deslocado o início do ano
romano de 1o. de Março para 1o. de Janeiro, a partir de 45 a.C.
Em função destas modificações, o
ano de 46 a.C. ficou conhecido como o “Ano da Confusão” e apesar
dos esforços, os anos bissextos que se seguiram não foram aplicados
corretamente até o ano de 8 d.C, quando então finalmente passaram a
ser regularmente contabilizados de 4 em 4 anos em todos os calendários.
E assim permaneceu por mais de 1500 anos. Assim:
Para o calendário Juliano, o ano
possuía: 365 + 1/4 = 365,25 dias
A origem do nome bissexto
Algumas pessoas pensam que o ano é
bissexto porque tem dois números 6 na quantidade de dias (366), o que
está errado.
No antigo calendário romano, os dias
tinham nomes com base no ciclo lunar e um mês dividia-se em três
seções separadas por três dias fixos: Calendas (lua nova), Nonas (quarto-crescente)
e Idus (lua cheia). Os dias eram designados por números ordinais
contados em ordem retrógrada em relação ao dia fixo subseqüente,
algo como o costume que temos em dizer um horário de 14:45h com sendo
“15 para as 3”.
Assim o dia 3 de fevereiro, por exemplo
chamava-se “antediem III Nonas Februarii”, ou seja “três dias
antes da Nona de Fevereiro”.
O dia 24 de fevereiro chamava-se “antediem
VI Calendas Martii” ou “antediem sextum Calendas Martii”, ou seja
“sexto dia antes da Calendas de Março”.
Ao fazer a introdução de mais um dia
no ano, Julio César escolheu o mês de fevereiro, e dentro deste mês
escolheu por “fazer um bis” ou “duplicar” o dia 24, chamando-o
de “antediem bis-sextum Calendas Martii”. Daí surgiu o nome “
bissexto”, que passou a designar o ano que tivesse este dia
suplementar.
Júlio César escolheu o mês de
fevereiro para adicionar um dia porque, além de ser o mês mais curto
do ano, com 28 dias, era também o último mês do ano entre os romanos,
que ainda por cima o consideravam como um mês nefasto. A escolha da
duplicação do dia 24, ao invés de se introduzir o novo dia 29 (como
fazemos hoje) se deu por motivos supersticiosos.
Por que a reforma Juliana do
calendário não resolveu o problema em definitivo?
Com o avanço dos instrumentos de
medição, percebeu-se que, apesar da correção quadrienal, o ano
Juliano não era preciso, uma vez que criava um excesso de 11 minutos e
14 segundos (ou seja 0,0078 dia) em relação ao ano solar. Essa
diferença, com o passar do tempo, foi causando implicações no
calendário das estações e nas datas de alguns ritos religiosos.
Como foi resolvida então a questão?
Em 1582, o Papa Gregório XIII
(1502-1585) introduziu uma reforma no calendário Juliano e criou o “Calendário
Gregoriano”. Este calendário havia sido elaborado, durante vários
anos, por uma comissão composta pelo próprio Papa e vários sábios,
entre eles o astrônomo e médico italiano Aloisius Lilius (1510-1576) e
o jesuíta e matemático alemão Cristophorus Clavius (1537-1612). Essa
comissão decidiu o seguinte:
Inicialmente descontaram 10 dias do
mês de outubro de 1582 para corrigir o erro que vinha sendo acumulado
até então (neste mês o calendário saltou do dia 4 para o dia 15) e
para acertar o calendário e evitar os futuros erros, fizeram o
seguinte:
Levando-se em conta que a discrepância
de um 1 ano Juliano era de 0,0078 dia a mais que o ano solar, ao final
de 1 século o excesso atingia 0,78 dia, ou seja, aproximadamente 3/4 de
dia. Ao final de cada 400 anos haveria, então, uma diferença de
aproximadamente 3 dias.
Considerando-se que estes dias
excedentes seriam introduzidos pelos futuros anos bissextos, a solução
do problema seria então eliminar 3 anos bissextos em cada 400, ou seja,
a partir de 1582 somente poderiam existir 97 anos bissextos em cada 400
anos. A engenhosidade para resolver este problema ficou resolvida assim:
Como os anos bissextos acontecem a cada
4 anos, temos 100 bissextos em cada 400 anos. Para termos 97, bastaria
"eliminarmos" 3 anos bissextos. Escolheu-se então retirar, a
cada 400 anos, aqueles que são divisíveis por 100 e manter o único
ano que é divisível por 400, ou seja, em um período de 400 anos temos
4 anos divisíveis por 100 a serem retirados (os anos 100, 200, 300 e
400 deixariam de ser bissextos) e 1 ano divisível por 400 a ser
re-incluído na lista (no caso próprio ano 400 voltaria a ser
bissexto). A “fórmula” do ano ficaria assim:
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 = 365 +
97/400 dias
E esta regra do ano bissexto permanece
até os dias de hoje assim intitulada:
“Será bissexto todo ano cujo
número seja divisível por 4 e não divisível por 100, sendo também
bissexto os anos divisíveis por 400”.
Assim:
Para o Calendário Gregoriano o ano
tem 365 + 97/400 = 365,2425 dias
E será que o problema da contagem do
ano bissexto foi definitivamente resolvido?
Infelizmente não, pois como citei
anteriormente, apesar do calendário Gregoriano ter sido criado para
resolver o problema dos acréscimos causados pelo calendário Juliano, o
valor aproximado usado nos cálculos para este acréscimo (3/4 dia a
cada 100 anos ou 0,0075 dia por ano) é diferente do valor real do
acréscimo (0,78 dia a cada 100 anos ou 0,0078 dia por ano). Isso dá
uma diferença de 0,0003 dia por ano, ou seja, a cada 3300 anos teremos,
aproximadamente, 1 dia extra que deveria ser retirado.
Assim um ano “moderno” passaria a
ter
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/3300 =
365, 2421969697 dias
Mas não podemos esquecer que, para
retirar este dia após 3300 anos, deveríamos fazê-lo a partir do ano
de 1582, o que provocaria uma tremenda novidade para o ano de 4882, pois
este não será um ano bissexto (não é divisível por 4) e ainda
deveria “perder” um dia, ficando com 364 dias! Será? Creio que
não...
Na verdade diversas pessoas já
propuseram, entre elas o astrônomo britânico John F. W. Herschel
(1792-1871), uma regra diferente para anos bissextos, ao invés do termo
1/3300 proposto acima, dever-se-ia calcular a fórmula do ano com o
termo 1/4000 (por ser múltiplo de 4), assim o ano ficaria:
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/4000 =
365 + 969/4000 = 365, 24225 dias
Isso jogaria o famoso “erro” de 1
dia extra para daqui a mais de 20 mil anos! Mas na verdade esta regra
nunca foi aceita e hoje não existe oficialmente nenhuma regra para ano
bissextos além daquela que conhecemos e que foi instituída pelo
calendário Gregoriano em 1582.
Por que não é possível termos um
calendário perfeito?
A busca por um calendário perfeito
não terminará nunca, apesar da precisão dos instrumentos de medida
aumentarem constantemente, pois o máximo que poderemos calcular será
sempre um valor médio, já que o período em que a Terra dá uma volta
em torno do Sol não é constante. Em sua longa viagem pelo espaço em
volta do Sol, o nosso planeta sofre pequenas alterações de velocidade,
causadas pela influência das forças gravitacionais de outros corpos
celestes. Essas pequenas variações, ao longo de muitos anos, sempre
causarão erros em relação aos nossos calendários “fixos”.
Comentários?
Marcelo Sávio
Bibliografia
[1] Artigo “Ano Bissexto”, de
Vincenzo Bongiovanni, publicado na Revista do Professor de Matemática (RPM)
nº 20, 1992 – Editada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).
[2] Nota científica sobre “Anos
Bissextos”, publicada no livro “Anuário de Astronomia” de Ronaldo
Rogério de Freitas Mourão, 1996 - Editora Bertrand Brasil.
[3] Documento “Frequently Asked
Questions about Calendars”, mantido por Claus Tøndering - Disponível
na Internet em [http://www.tondering.dk/claus/calendar.html].
[4] Livro: “Fim de Milênio–Uma
história dos calendários, profecias e catástrofes cósmicas”, por
Betília Leite e Othon Winter – Ed. Jorge Zahar Editor, 1999.
[5] Livro: “Calendário–A epopéia
da humanidade para determinar um ano verdadeiro e exato”, por David
Ewong Duncas – Ed. Ediouro, 1999.
Veja também:
O autor
Marcelo Sávio
msavio@hotmail.com
- Bacharel em Matemática pela UERJ, em
1994.
- Mestrando em Sistemas de Computação
pela COPPE-UFRJ, em 2003.